sexta-feira, 10 de junho de 2016

Um estudo de caso: Dislexia: é possível uma pessoa com dislexia aprender a ler e a escrever?

Fui abordada pela mãe de Kattie que gostaria que a filha aprendesse a ler, olhar horas, calendário, enfim, coisas que a maioria de nós faz naturalmente. A mãe disse que Kattie havia frequentado até o segundo grau, mas que, passava ano e ano, e ela não aprendera muita coisa. Preparei uma leitura simples, com personagens bíblicos, porque Kattie é evangélica e, com certeza, conhecia muitos personagens bíblicos. 

Pois, bem. No primeiro dia de aula, um texto simples sobre mulheres bíblicas. A primeira mulher: Eva. Notei que enquanto lia, Kattie soletrava e não conseguia unir as sílabas de uma vez. Ela lia uma mesma palavra até quatro, cinco vezes, no mesmo texto, mas não conseguia identificá-la. Após uma hora trabalhando o mesmo texto e personagem, eu expliquei diversas coisas a respeito de Eva, como, o lugar onde morava, com quem morava, seus filhos, a serpente, a desobediência e a motivação do pecado de Eva. Depois passamos a trabalhar com  números. Desenhei um relógio e pedi que me acompanhasse com os números. Quando os números estavam na frequência, tipo, 1, 2, 3 [...] ela conhecia e fomos até o 39, trabalhando de 10 em 10.

No primeiro momento, escrevi numa folha os números de 0 a 9. 

0      1      2      3      4      5      6      7      8      9     Unidades

Depois posicionei o número 1 no centro, deixando um espaço à esquerda e outro à direita:

                                       ___  1 ___

Isso porque quando pedi que ela escrevesse a data 08/06 ela escreveu 80. Expliquei que o zero acrescentado à esquerda não tinha valor numérico. Então: 08 se lia oito; 06 se lia seis. Coloquei depois um zero à esquerda e outro à direita nos espaços:


                                        0    1     0

Depois repeti os numerais de 0 a 9 na mesma sequência:

  0        1        2        3        4        5        6        7        8        9

 e fui acrescentando o número 1 à esquerda de cada número:

10      11     1 2      13      14      15      16      17      18      19 e assim fiz com o 2 e com o 3, até 39,

Depois escrevi os números no relógio para que ela identificasse a hora. Depois, com um calendário colorido, pedi que identificasse o mês de junho, que é o mês 6. E perguntei por que ele é o mês 6? Então, junto com ela, contei os meses do ano até junho. A palavra junho Kattie escreveu sem olhar e sem soletrar. Outra palavra que ela não teve dificuldade em escrever foi 'Deus'. Saiu naturalmente. Então eu percebi que ela poderia ler, sim. Mas não conseguia falar a palavra e escrevê-la ao mesmo tempo.

Ela também tem dificuldade de localizar posições, por exemplo, o último dia do mês de junho. Ela demorou um pouco e nem sei se conseguiu ou foi só um chute. Repetindo o exercício, ela ainda não soube identificar o último número, ou o primeiro do mês.

Conversei com uma ex-professora de Kattie. E, confesso, fiquei decepcionada com o que ela disse: "A Kattie nunca vai aprender a ler. Ela não consegue fazer associações. Ela faz e esquece. A mãe dela deve investir em pintura porque ela é ótima para pintar, pinta excelentemente, mas ler ela nunca vai conseguir". Tomei aquele 'nunca' como um desafio. Quase pedi desculpas pra Kattie porque aquelas palavras foram ditas na frente dela. Mas eu não vou desistir.

Lendo um material na internet, descobri que ela tem dislexia. E que uma pessoa disléxica pode aprender a ler e a escrever. Como eu estudei fonética e fonologia na faculdade, comecei a preparar uns exercícios que usassem cores, imagens e sons que ela poderia fazer associações. Esse material será para a próxima aula.




   

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